6 de out de 2010

"De tanto levar frechada do teu olhar..."

Venho através deste texto prestar uma homenagem. Uma homenagem póstuma. Uma homenagem póstuma a alguém que não pertenceu ao meu convívio social. Um personagem.

Conheci Adoniran Barbosa esse ano. Por intermédio de Elis Regina, uma amiga que temos em comum. Ela trazia uma melodia harmoniosa e uma voz dramaticamente aveludada às canções compostas por Adoniran.

Desde então, nos tornamos grandes amigos. Só ele foi capaz de descrever a intensidade de uma paixão e a fúria de "um olhar que mata mais do que bala de carabina". Me transmitiu a vida urbana de Mato Grosso e de Joca, que por intermédio "dos hômi" tiveram sua Maloca demolida. Adoniran personificou a perda de um grande amor com a descrição minuciosa de seu relacionamento com Iracema. E acabou me apresentando para vários de seus companheiros, como Arnesto, Álvaro e Bexiga.

Hoje, professores de português podem discutir a variante linguística socio-cultural desse personagem, os seus mecanismos de supressão, acréscimos e trocas fonéticas. Adoniran só queria compor algo que pudesse chegar ao entendimento do brasileiro, povo cansado de repetir canções sem saber seu conteúdo. Queria narrar algum fato que pertencesse ao cotidiano popular e que, por isso, acabamos não tomando nota do caráter de superação desses anti-heróis. Adoniran conversava comigo e me passava seus ensinamentos como se eu fosse o compadre que morava na casa ao lado.


A verdade é que nunca gostei de escrever narrativas e, talvez por isso, sempre gostei de lê-las.

Saudosa Maloca

Adoniran Barbosa

Si o senhor não está lembrado
Dá licença de contá
Que aqui onde agora está
Esse edifício alto
Era uma casa velha
Um palacete abandonado
Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca
Construímos nossa maloca
Mais, um dia
Nem quero me lembrar
Veio os homens cas ferramentas
O dono mandô derrubá
Peguemo tudo a nossas coisas
E fumos pro meio da rua
Apreciar a demolição
Que tristeza que eu sentia
Cada táuba que caía
Duia no coração
Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homis tá cá razão
Nós arranja outro lugar
Só se conformemos quando o Joca falou:
"Deus dá o frio conforme o cobertor"
E hoje nóis pega a páia nas grama do jardim
E prá esquecê nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida,
Que dim donde nóis passemos dias feliz de nossa vida